• Pedro Sahium

2. H. Contemporânea: Revoluções Russas

Em outubro de 1917 a Rússia foi sacudida por uma crise sem precedentes que marcaria não somente a história daquele país multiétnico (uma babel de línguas), mas a história do mundo todo (foi daí que o socialismo científico, como era chamado por Lenin, se desenvolveu e se projetou para dividir o mundo em bloco capitalista, liderado pelos Estados Unidos, e bloco socialista ou comunista, liderado pela URSS.



Olhando para o tempo médio, de uns trezentos anos anteriores à revolução russa de outubro de 1917, vemos uma Europa que foi sacudida pelas revoluções inglesa de 1642/1688, e francesa de 1789. Essas revoluções, somadas à revolução americana de 1776, criaram uma avalanche de grandes novidades, e de múltiplas e novas relações políticas, sociais, econômicas e culturais em todo o planeta. Um modo capitalista de organização econômica e social se estende a parir daí como modelo para o planeta. O regime democrático, o trabalho assalariado e os nacionalismos se instalam de uma vez como pilares desse mundo moderno. Mas, a Rússia...


  • Permanecia num sistema semifeudal com uma massa de mais de 80% da população no campo, são os mujiques, tratados como servos, sujeitos à pobreza, à miséria de todo tipo, sem educação ou assistência (o fim da servidão somente se deu em 1861);


  • Permanecia dominada pelo poder absolutista do tsar (tsar, césar, kaiser), que governava com "mão de ferro", e que, "tinha que ser ao mesmo tempo: ditador, alto sacerdote e “paizinho”. E seguir com as qualidade do dom da graça, a virtude da legalidade e a autoridade do eterno ontem: magnetismo, legitimidade e tradição. Além disso precisavam cultivar o respeito e o temor;


  • Sob o poder dos Románov (desde 1613), a arte de sobrevivência política era baseada no equilíbrio dos clãs, de interesses e personalidades que refletiam ao mesmo tempo um minúscula corte e um império gigantesco (...) deviam manter o apoio do Exército, da nobreza e da administração;


  • Tinha uma classe de proprietários de terra que eram ausentes dos negócios, viviam endividados, parasitando a sociedade, sem alternativas para o futuro, resistindo ao avanço produtivo capitalista;


  • Permanecia alheia ao desenvolvimento capitalista do resto do mundo, com uma pequena indústria mas com um império administrativamente pesado, letárgico, de sociedade agrária, e forte influência da religião Ortodoxa e de um misticismo popular, com traços do animismo e da magia popular;



  • Tinha uma pesada tradição religiosa que fazia do tsar o "representante de Deus na terra".


  • Que conheceu apenas em 1890 uma onda de desenvolvimento capitalista com construções de estradas de ferro pelo Estado bem como de avanços na metalurgia, na siderurgia, na exploração e uso de carvão e petróleo. Desse período também se registram investimentos capitalistas estrangeiros nas finanças e no setor tecnológico.



DA RÚSSIA SE DIZIA: É UM "GIGANTE DE PÉS DE BARRO"



Em 1905:


Falaremos em revoluções e não em revolução russa, porque o primeiro movimento a levantar alto a "poeira" naquela sociedade se deu em 1905, e se tornaria conhecido como um "ensaio geral" para a revolução de outubro de 1917. O "Domingo Sangrento", a revolta no "Encouraçado Potemkim", as greves em Moscou e São Petersburgo, e a atuação dos sovietes ("conselhos" em Russo), em especial o soviete de São Petersburgo, liderado por L. Trótski, são pontos importantes no combate e na revolução de 1905.


De 1905, merecem destaque os seguintes fatos:


- Depois dos trabalhadores das cidades e das camadas médias urbanas, também se mobilizaram os camponeses que invadiram terras e constituíram associações. Em julho de 1905 fizeram o primeiro congresso camponês, reunindo representantes de 22 províncias, e exigiram a nacionalização da terra e a eleição de uma Assembléia Constituinte" (REIS FILHO, p.44)


- As nações não-russas aproveitam o momento para defender programas de autonomia cultural e política.


- Nasceram os sovietes (conselhos) de representantes, "ágil, flexível, colado aos sentimentos e aspirações da base de eleitores, sem mandatos fixos, nem remunerações especiais, conjugando aspectos políticos e sindicais - o soviete adquiriu rapidamente projeção em todo o império, tendo sido assumido como modelo de organização em muitas cidades".


- A monarquia se tornou constitucional e uma assembleia foi convocada (Duma), embora sem nenhuma efetividade prática.


- Surgiu a ideia de uma greve política de massas;


- Nicolau II foi obrigado a assegurar direitos civis fundamentais bem como a liberdade de imprensa, associação, palavra e reunião (apesar de intensa repressão que se seguiu a essas medidas).

Domingo Sangrento



Entre 1905 - 1917:


- No começo de 1906, apesar de finalmente, serem convocadas as eleições para a Duma Imperial, o Parlamento nunca alcançou plenitude maior - o regime tsarista era invencível (as frustrações quanto a essa convocação se acumularam e em 9 de julho de 1906 a Duma foi dissolvida).


- A partir de 1910-12 começaram a surgir novas manifestações e reivindicações sindicais e políticas, que vão se intensificar no primeiro semestre de 1917.


- Em agosto de 1914 explodiu a Primeira Grande Guerra e a sociedade reage ao chamamento do regime para defender a Pátria dos tradicionais inimigos ocidentais.


- Com todos os esforços concentrado para o combate e para a indústria bélica, a agricultura começa a somar prejuízos, falta mão de obra; as indústrias, não ligadas ao setor bélico, fecham; o setor financeiro amarga muitos prejuízos e a moeda se desvaloriza; os soldados se veem com salários atrasados e sem alimentação e equipamentos suficientes; em 1915 o país já contava com 150 mil mortes nas trincheiras, e 1,5 milhão feitos prisioneiros ou feridos; a população contabiliza prejuízos e carências de todo tipo. Aproxima-se o caos, um colapso total na sociedade.




Fevereiro de 1917:


- Ponto máximo da crise em fevereiro de 1917: esgotados todos os estoques de alimentação a população se revoltou. Radicalizada as tensões, nas jornadas de fevereiro de 1917, opera-se uma revolução em que o inimigo comum, devidamente identificado, foi o tsar. Toda a sociedade se une contra o tsar, "do alto comando ao soldado, do grande capitalista ao humilde operário, do proprietário de terra ao mujique, dos russos aos não-russos" (REIS FILHO, 2000, p. 48).



- Forma-se um governo provisório co o príncipe Lvov, mas os trabalhadores passaram a se organizar em sovietes, e surge uma situação de "duplo poder". Os sovietes exigem: paz, terra, pão, autonomia para as nacionalidades não-russas e controle operário sobre a produção.


São postos em movimento quatro processos sociais:


1) Onda avassaladora do movimento camponês: invadem terras e a tudo expropriam; a terra é nacionalizada e quebra-se um dos pólos do nexo rural: os proprietários privados da terra, nobres e burguese. Emergiu a comuna rural igualitarista.


2) Na frente militar os soldados desertam e voltam para as suas terras, para participarem da distribuição igualitária da terra.


3) Nas cidades somam-se greves operárias e os lock-outs dos patrões; formam-se comitês de fábrica e controle da produção; surgem milícias operárias que guardam prédios e vigiam as ruas.


4) As nações não-russas proclamam seu direito à autodeterminação e à independência política.




Outubro de 1917:


- A insurreição de outubro tem uma coordenação, o partido bolchevique. Liderado por Lenin, os bolcheviques organizaram as instituições sob seu controle, principalmente o soviete de Petrogrado e seu comitê militar. Lenin defendia a deposição do governo provisório, a condução do processo pelo Partido bolchevique, majoritário nos sovietes, todo o poder para os sovietes de quem um governo revolucionário deveria se reportar de forma única.



Sob o comando de L. Trotski, a guarda vermelha em 24 e 25 d outubro ocupou os pontos estratégicos da capital russa, cercou e invadiu o Palácio de Inverno, sede formal do poder. Era a noite de 24 de outubro, no dia seguinte o congresso dos sovietes abriu suas sessões com o fato já consumado: a insurreição vitoriosa. Os sovietes assumiram o poder.


Tomaram-se as seguintes medidas:


- Assinatura do Tratado de Brest-Litovk, paz com a Alemanha;

- Entrega das terras aos camponeses;

- Nacionalização dos bancos e investimentos estrangeiros;

- Adoção do regime de autogestão das fábricas pelos operários.


A reação contra os comunistas bolcheviques veio de imediato por parte das antigas classes dominantes apoiadas pelo poder externo. Segue-se um período de guerras civis entre 1918-1921.

Apenas em 1922, vencidas as reações adversas, na esfera política fundou-se a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas URSS.



ATIVIDADE PROPOSTA


Faça uma breve relato do período posterior à revolução de outubro de 1917 e explique as medidas adotadas pelos bolcheviques no poder e diante de movimentos como a revolução de Kronstadt. Por que o professor Reis Filho afirma que "a atitude dos bolcheviques com os marinheiros revoltosos (p. 57), representou um sinistro prenúncio"?




Outras obras sugeridas, além daquelas que estão no plano de curso


- REED, John. 10 dias que abalaram o mundo. São Paulo: Ed Global: 1978.


- REIS FILHO, Daniel Aarão. As revoluções russas. In: REIS FILHO, D. A. et. al. O século XX: o tempo das crises. V.2. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000, pp. 35-59.


- REIS FILHO, Daniel Aarão . Rússia (1917-1921): anos vermelhos. Ed. Brasiliense: Col. Tudo é história.


- Marx, Karl e Engels, Friedrich.Manifesto do Partido Comunista. Petrópolis, RJ. Vozes, 2011.


- MOTEFIORE, Simon Sebag. Catarina-e-Potemkim: Uma história de amor na corte Románov. São Paulo: Companhia da Letras: 2018.


- ________. Os Románov: 1613-1918. São Paulo: Companhia das Letras: 2016.





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