• Pedro Sahium

A religião do planeta global


Finalizando essa Unidade, passaremos à análise sociológica da questão que trata do binômio modernização/secularização, por meio da visão do professor e sociólogo brasileiro Reginaldo Prandi*. A maior parte do texto que segue tem sua base nos escritos dele com o título “A religião do planeta global” -, referenciado ao final.


A teoria da secularização, que descreve o enfraquecimento da religião, na medida em que a razão vai explicando o homem e o mundo ao seu redor, ainda é uma teoria que serve como referência para analisarmos o período vivenciado na virada do século XX para o XXI. É verdade que as religiões não desapareceram, elas não acabaram com o avanço vertiginoso da ciência, que avançou muito em todos os seus quadrantes neste início do século XXI.


O mundo desencantado, como dizia o sociólogo Max Weber ao falar de um mundo em que a religião estaria num ‘segundo plano’ e não seria depositária das respostas que o homem precisa para, interpretar, explicar e promover as mudanças necessárias para uma vida melhor, ainda continua desencantado.

Prandi diz que: Por mais presente que a religião possa nos parecer no dia-a-dia, as decisões mais importantes e mais fundamentais e que afetam a vida de praticamente todo mundo são sempre tomadas sem que nenhuma referência a Deus tenha que ser feita. Nossa sociedade não precisa de Deus ou de deuses no seu governo, nem para seu progresso, nem para a eficácia de suas políticas. Quando se invoca Deus, o gesto é meramente parte de uma etiqueta, não é uma interpelação de cuja resposta possamos depender. Nossas inquietações básicas são dirigidas às esferas profanas, ao estado e suas instituições políticas, à ciência e tecnologia, ao pensamento laico (PRANDI, 1997, p. 64).



Mais uma vez vemos o autor estudando o fenômeno religioso sob a perspectiva das necessidades humanas e sociais, oferecendo um olhar sociológico, enquadra a religião como fruto apenas do contexto social/econômico e cultural dos povos, sem uma preocupação com a fenomenologia.

Penso ser importante ouvirmos a perspectiva sociológica da questão religiosa (em outros momentos já expressei minha preocupação quando “à afirmação da sociologia, de que a verdade reside apenas no que é socialmente construído”).


Prandi acrescenta que:


Atualmente a religião, em muitas de suas versões e modalidades, também é uma expressão importante de identidade individualizada, de fruição de sentimentos pessoais, de gosto e prazer. Pode ser consumidas pela satisfação que é capaz de proporcionar aos indivíduos que se sentem bem em participar de uma dimensão da vida situada no outro mundo e povoada de anjos, espíritos, forças sagradas as mais díspares, podendo acreditar em vidas passadas e enriquecer suas vidas com essas dimensões subjetivas capazes de negar a objetividade compartilhadas com os demais mortais. Há um tipo de sensibilidade que a religião parece ser muito bem dotada para preencher e desenvolver como são capazes as artes. Neste sentido, ser da religião é ser diferente, é sentir-se contra a corrente. É dar-se uma importância que o resto do mundo não dá, num sentido que junta experiência emocional pessoal com a religião e que é quase sempre egoísta e individualista (PRANDI, 1997, p. 64).


O que se percebe hoje é que, como no restante, a religião está bem diversificada. Um caso diferente é o Islã, “que captura um território, identifica-se ao máximo com o estado, numa perfeita simbiose de lealdade, e controla a pluralidade (...)” (PRANDI, 1997, p. 67). Compreendemos que “religiões são fontes de sentido” elas oferecem uma identidade, um “situar-se no mundo”.


No final da modernidade, a religião não sabe ou não pode ser o parceiro das mudanças sociais responsáveis por algum significado benéfico para a humanidade. Ela se comporta como se estivesse acima da história. Está sempre lá onde alguma coisa muito séria anda errado. Não corrige, apenas substitui. Não junta, mas separa. Talvez por isso seja importante estudar a religião: sua presença pode nos orientar no sentido de se chegar a uma melhor compreensão a propósito de nossa própria sociedade, sobretudo de suas mais profundas dificuldades (PRANDI, 1997, p. 69).



O problema apontado acima também passa pelo estabelecimento de uma religião que exclui o território. Dependendo das forças mercantis, a religião atua, sem ser universal, em todo e em nenhum território. Ela reage à concorrência e aos meios eletrônicos de comunicação. É uma religião do mercado sem fronteiras, que se esparrama, se fragmenta se modifica ao sabor das circunstâncias mercadológicas, uma religião que se consome, se vende e se compra (p. 70).



Acrescento, por fim, que a questão a ser debatida não está, nesse caso exposto por Prandi, na religião propriamente dita, e não apenas no processo de secularização como resultado do avanço da idade moderna, mas nos rumos tomados por essa sociedade de consumo que se tornou múltipla, plural, uma sociedade do pluralismo. E esse pluralismo, talvez mais ainda que a secularização, é que faz a religião recuar dos domínios mais amplos da sociedade e ter que se colocar como um produto que compete junto com outros, na determinação de sentidos de vida para os homens.



Vídeo aula - secularização


Vídeo: Religião e compaixão - Karen Armstrong





ATIVIDADE PROPOSTA:

  • O sociólogo Reginaldo Prandi afirma que o mundo, da passagem para o século XXI, continua desencantado. Como você analisa as afirmações dele, feitas de forma direta no texto? Pode postar aqui mesmo ao final do blog, no próximo encontro comentarei com vocês cada uma das colocações.


  • Que aspectos, da exposição da estudiosa Karen Armstrong no vídeo anexo, lhe chamaram mais a atenção? O que se aprende de sua fala no vídeo?


* Sociólogo, professor e escritor brasileiro, professor emérito as Universidade de São Paulo. Recebeu em 2018 o título de Professor Emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Trabalha na área de sociologia, com ênfase em sociologia da religião

PRANDI, Reginaldo. PRANDI, Reginaldo. A religião do planeta global. In: ORO, Ari Pedro e STEIL, Carlos Alberto (Orgs.). Globalização e Religião. Petrópolis: Vozes, 1997

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