• Pedro Sahium

Ainda sobre o Sagrado e o Profano, Mircea Eliade

No mundo moderno a relação do homem com o transcendente se tornou importante pois esse mesmo mundo se constituiu “na recusa de um apelo à realidade transcendente”. Contudo, para Mircea Eliade o sagrado não foi abolido, mas, está presente de forma camuflada. Para esse historiador da religião é preciso fugir dos reducionismos como os de Marx (A Religião é o ópio de povo), e de Freud (A Religião é uma ilusão), e, usar a dialética do sagrado e profano (Sagrado e Profano correspondem a duas formas de viver nesse mundo), bem como a análise do simbolismo. A dialética do sagrado e profano está na manifestação do sagrado por meio do profano, “mas nunca de forma plena”, lembrem-se da hierofania realizada para Moisés: Deus se manifesta por meio de um "arbusto - sarça - que ardia em chamas mas não se consumia". Deus era o "arbusto pegando fogo", sua forma manifesta em termos naturais, profanos, mas Ele é algo completamente diferente de um arbusto em chamas...

Sem deixar de ser o que é, o profano revela o sagrado. “O sagrado veste a roupagem do profano para se manifestar aos homens”.

A complexidade do sagrado é a uma só vez estrutural (mitos, ritos, símbolos) e histórica (cada hierofania - manifestação do sagrado - ocorre num contexto específico, demarcado na posição histórica do homem diante do sagrado). As religiões tem muito a nos dizer, nesse sentido a historiadora e teóloga Rhoden (1998), aponta o que Eliade pensava do termo salientando:



Assim, contrariamente àqueles pensadores iluministas que, estudavam o fenômeno religioso, a fim de mostrar o espaço cada vez maior conquistado pelas explicações racionais, Eliade estuda as situações vividas pelo homo religiosus para desvendar significações essenciais para a vida do homem moderno arreligioso. Vale dizer que a história das religiões, segundo Eliade, não é um museu de fósseis que nada mais tem a dizer ao homem. O historiador, aqui, não está trabalhando com peças mortas, mas com sentidos que podem ajudar o homem moderno a solucionar suas crises (RHODEN, 1998, p. 13).




A especificidade do fenômeno religioso levou Mircea Eliade a estudar o fenômeno da experiência religiosa. Ele refuta qualquer tipo e reducionismo.



Querer delimitar este fenômeno pela fisiologia, pela psicologia, pela sociologia e pela ciência econômica, pela linguística e pela arte, etc., é traí-lo, e deixar escapar precisamente aquilo que nele existe de único e irredutível, ou seja, o seu caráter sagrado (ELIADE apud ROHDEN, 1998, p. 20).

Eliade dá uma autonomia ao fato religioso sem com isso anular as contribuições da sociologia, da psicologia ou da história. Embora um fenômeno religioso se componha de elementos oriundos das disciplinas que tentam explicá-la, pois “não há fenômeno religioso fora da história, isto é fora de um contexto socioeconômico” (p. 21), o fenômeno religioso precisa ser compreendido em suas “estruturas e significados irredutíveis e originais”. O dado religioso deve ser estudado enquanto tal, “pois corre-se o risco de negligenciar a total intencionalidade, própria do dado religioso”.





O TEMPO SAGRADO E OS MITOS



Assim como para o espaço, o tempo também não é igual para o homem religioso. Existe, para esse homem, o tempo profano, da duração temporal ordinária na qual se inscrevem os atos privados, e o tempo sagrado que corresponde ao tempo das festas (na sua grande maioria festas periódicas, ex.: festa do bom jesus, das cavalhadas – catolicismo; festa dos Tabernáculos e Pentecostes – judaísmo; Peregrinações a Meca e mês d Ramadã – Islamismo; calendário litúrgico dos terreiros, que variam de terreiro para terreiro; etc.).

Entre estes tempos, por meio de ritos, o homem religioso dá uma solução de continuidade para "passar" sem perigo da duração de um tempo a outro.

O tempo sagrado é "reversível", "reatualizado", "tempo mítico primordial tornado presente", através de ritos. "A cada festa periódica reencontra-se o mesmo tempo sagrado " (p.64). O homem religioso vive em duas espécies de tempo, e "recusa-se a viver unicamente no que, em termos modernos, chamamos de "presente histórico"; esforça-se por voltar a unir-se a um “tempo sagrado (p.64), que pode ser equiparado à eternidade”. O homem não-religioso também experimenta uma descontinuidade e heterogeneidade no tempo, por exemplo, quando ouve uma música que lhe foi significativa ou se encontra com alguém que lhe é precioso (a).

O serviço religioso é uma rotura na duração temporal profana. Assim explica Eliade:




[...] para o homem religioso das culturas arcaicas, toda criação, toda existência começa no Tempo: antes que uma coisa exista, seu tempo próprio não pode existir. Antes que o Cosmos viesse à existência, não havia tempo cósmico. Antes de uma determinada espécie vegetal ter sido criada, o tempo que a faz crescer agora, dar fruto e perecer, não existia. É por esta razão que toda criação é imaginada como tendo ocorrido no começo do Tempo, in princípio. [...] Eis por que o mito desempenha um papel tão importante [...] é o mito que revela como uma realidade veio a existir (ELIADE, 2013, p. 69,70).




O mito conta uma história sagrada, quer dizer, um acontecimento primordial que teve lugar no começo do tempo, ab initio - desde o início - (p. 84).




O mito proclama a aparição de uma nova "situação" cósmica ou de um acontecimento primordial. Portanto é sempre a narração de uma "criação": conta-se como qualquer coisa foi efetuada, começou a ser. É por isso que o mito é solidário da ontologia: só fala das realidades, do que aconteceu realmente, do que se manifestou plenamente.

É evidente que se trata de realidades sagradas, pois o sagrado é o real por excelência. Tudo o que pertence à esfera do profano não participa do Ser, visto que o profano não foi fundado ontologicamente pelo mito, não tem modelo exemplar (ELIADE, 2013, p. 85).



O mito é o "modelo exemplar", revela a "sacralidade absoluta", "descreve as diversas e às vezes dramáticas irrupções do sagrado no mundo" (p. 86). O homem religioso quer imitar o que foi feito num tempo remoto - in illo tempore - e isto às vezes ganha contornos graves. Caso do deus que havia espancado o monstro marinho e o esquartejado para criar o Cosmos (p. 89). Existe aqui um sacrifício de sangue que pode se repetir inclusive no ritual de canibalismo. Eliade nos lembra que o verdadeiro pecado é o esquecimento, daí a necessidade dos ritos para experienciar o mito fundante da religião.




EXISTÊNCIA HUMANA E VIDA SANTIFICADA



O objetivo do historiador da religião é compreender e tornar compreensível aos outros o comportamento do homo religiosus e seu universo mental.

Para o homem religioso o universo é "vivo" e "fala" suas mensagens se espalham por todos os lugares em todos os objetos.



É por essa razão que, a partir de um certo estágio de cultura, o homem se concebe como um microcosmos. Ele faz parte da criação dos deuses, ou seja, em outras palavras, ele reencontra em si mesmo a santidade que reconhece no Cosmos. Segue-se daí que sua vida é assimilada à vida cósmica: como obra divina, esta se torna a imagem exemplar da existência humana (ELIADE, 2013, p. 135).



O homem não só vive no mundo, mas, faz parte dele e por isso nunca está sozinho, é uma existência "aberta para o mundo" (p. 136). Isto implica em aceitar o fato de que esse homem está aberto às experiências cósmicas. As principais funções fisiológicas são passíveis de se transformarem em sacramentos: alimentação, vida sexual, casamento... (p.139) Corpo-casa-cosmos.

Toda a vida do homem religioso está recheada de "cifras", de passagens, percepções e, "o caminho e a marcha são suscetíveis de ser transfigurados em valores religiosos, pois todo o caminho pode simbolizar 'o caminho da vida' e toda a marcha uma 'peregrinação', uma peregrinação para o Centro do Mundo" (p. 149). Os ritos de passagem perpassam toda a vida humana. Do nascimento até à morte.

Numa perspectiva a-religiosa tudo perdeu a sacralidade, as "passagens não têm mais caráter ritual", "nada mais significa além do que mostra o ato concreto de um nascimento, de um óbito ou de uma união sexual oficialmente reconhecida" (p. 151).


Numa comparação entre o "homem religioso" e o "não religioso" Eliade observa que o homem religioso "acredita sempre que existe uma realidade absoluta", o "sagrado" a própria origem humana é sagrada. Enquanto isso o homem moderno a-religioso "assume uma nova situação existencial: reconhece-se como o único sujeito e agente da História e rejeita todo apelo à transcendência" (p. 165). Este homem moderno projeta-se como homem na História mas, vive de mitos camuflados: O cinema, "fábrica de sonhos", retoma e utiliza inúmeros motivos míticos –por exemplo, a luta entre o herói e o monstro; e até a leiturapode camuflar essa “retirada do mundo, essa "saída do tempo”, comparável à efetuada pelos mitos" (p. 167).

Interessante as observações de Eliade de que "a existência humana se constitui por uma série de provas experimentadas ao longo da vida, e pela experiência reiterada da "morte" e da "ressurreição".



Proposta de atividade: Depois de ler atentamente o texto acima, assista ao vídeo abaixo, leia o restante do livro O sagrado e o profano, e faça anotações (resumo) desse assunto destacando:

- O que é uma hierofania e por que as religiões nascem dela;

- Qual a diferença entre "tempo sagrado" e "tempo profano";

- O que é o mito;

- Qual a relação entre o tempo sagrado e o mito;

- O que é o axis mundi;

- Qual a comparação que Eliade faz entre o viver do "homem religiosus" e do "homem moderno" a-religioso;

- Em que sentido o mito se torna presente no mundo moderno por meio do cinema.



Vídeo - Espaço e Tempo em Eliade (Dr. Mac Dowell)

- ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. São Paulo: Martins Fontes, 2013.


- ROHDEN, Cleide Cristina Scarlatelli. A camuflagem do sagrado e o mundo moderno. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1998.

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