• Pedro Sahium

Capitalismo e religião


(...) o mundo, em geral, está praguejado de amorosas modas, e a moda consiste em adorar algo com grande abandono tão-somente para bani-lo depois para todo o sempre" (Goethe)



Existe uma espiritualidade que cresceu muito, e ainda continua crescendo, que eu chamo de “espiritualidade do desapego consumista”. Aprendi com Fabrice Hadjadj que “o consumo não é um materialismo, mas uma espiritualidade do desapego”. A ideia central, o seu dogma, que rege a vida de milhões (não seria bilhões?) é, no meu entendimento: Aproveite o Aqui e Agora, Pague, Consuma e Descarte.


Na palavra Aproveite, vejo a “mística” do instantaneísmo, ou seja, não devemos esperar nem um minuto para desfrutar do gozo antecipatório do paraíso, do paraíso das prateleiras da web da vida. Aproveite já, não precisa esperar, estenda a mão e mostre o seu poder, compre o que já é seu. O essencial está no celular novo, no carro esporte e de luxo, no novo tênis que chegou nas prateleiras do hipermercado mundial.



O Aqui e Agora é um chamamento a pôr fim em qualquer ideia ou ideal de futuro, com qualquer respeito com o passado ou responsabilidade com a natureza. Aqui e Agora soa como ideal egocêntrico e que deve ser levado aos quatro cantos da terra: o gozo não pode ser adiado, apenas o ego satisfeito é o que importa; nenhuma dor, nenhum sacrifício, nenhuma renúncia, nem um risco no dedão do pé. Aliás, desde 1968, já fora proclamado que “a perspectiva de gozar amanhã jamais me consolará do tédio de hoje”.



O Pague, Consuma e Descarte chama a todos (as) a não depender de ninguém, a livrar-se de toda e qualquer possibilidade de gratidão. E isso só é possível quando se compra, e se faz dono de qualquer coisa, inclusive de pessoas a quem se reifica e usa, podendo descartar quando for conveniente.





Contudo, é preciso advertir os praticantes ou entusiastas dessa espiritualidade:



1) O desapego, quando pensado no conjunto de práticas de meditação, de yoga, e de doutrinas dos sábios budistas da índia, China e Japão, não comporta essa compulsão consumista e de desapego via descarte, como uma obsolescência constante de tudo. Por outro lado, no judaísmo, no cristianismo e no islamismo, “a Verdade é relação com uma Pessoa, e não domínio de um sistema”. A Paz é um abraço e não um desapego. Hadjadj deixa claro quando escreve a obra “Paraíso a Porta”, ao dizer que, “O culto do orgasmo é niilista (aniquila valores, e nos leva ao nada): ele pretende coroar o abraço do outro e o florescimento de si, quando só abraça o vazio”.




2) O filósofo Epicuro (371 – 270 a. C.), já alertava que o prazer imediato não é o melhor, porque ele pode conduzir a uma dor futura, e nos levar a perder, na falta de uma mediação racional ou tradicional, um prazer maior. E daí reside o desencantamento.




3) Me parece ideal encerrar esse texto com as palavras que F. Liszt escreveu à sua amada Marie d’Agoult: “Se não chegamos à felicidade, talvez seja porque somos mais valiosos do que ela. Há energia demais, paixão demais, fogo demais em nossas entranhas para que nos acomodemos burguesamente no possível”.

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