• Pedro Sahium

Matriz Religiosa brasileira

Um resumo analítico da obra de Bittencourt Filho, Matriz Religiosa Brasileira (2003).


A proposta do autor é de apontar traços de uma matriz religiosa brasileira, "correlacionada historicamente com a miscigenação, o sincretismo, a modernização e com os diferentes estágios de nossa História econômica" (p. 19).


Bittencourt Filho (2003) identifica essa Matriz religiosa nos seguintes elementos:

o catolicismo ibérico,

a magia européia,

as religiões indígenas,

as religiões africanas, e, por fim

o espiritismo europeu e alguns fragmentos do Catolicismo romanizado.

(BITTENCOURT FILHO, 2003, p. 41).


Um verdadeiro mosaico constituinte. Quando nos perguntamos sobre o Protestantismo Histórico, Bittencourt Filho (2003) nos lembra de que este rejeitou a Matriz Religiosa e a identificou com o mal, com o pecado, e com as consequências que daí se deriva. Numa última observação, esta mais recente, do caudal constitutivo da religiosidade brasileira, acrescenta:


Os pentecostalismos, por seu turno, reprocessaram a religiosidade de origem matricial, apondo-lhes sinais valorativos. Em outras palavras: ao invés de rejeitar esse sistema de crenças do senso comum, discriminaram e classificaram aquilo que pertenceria ao domínio de Deus, e aquilo que se situaria na jurisdição do Diabo. A rigor, com esse procedimento, os pentecostalismos ensejam que a Matriz Religiosa Brasileira permaneça intacta. Esta seria apenas cuidadosamente realocada num novo esquema religioso (BITTENCOURT FILHO, 2003, p. 44).

O que ele chama de Matriz Religiosa Brasileira não deve ser entendida como uma categoria de definição, mas, como objeto de estudo. Os elementos constitutivos desta Matriz são oriundos de "formas, condutas religiosas, estilos de espiritualidade, e condutas religiosas uniformes" tudo isso se mesclando, fazendo surgir formas "complexas de interação de idéias e símbolos religiosos".



A visão mágica do mundo, que compartilhavam os europeus do século XVI, em que paraísos terrestres se misturavam a figuras demoníacas que atuavam no mundo humano, migrou para o Novo Mundo. A maior parte da população européia era constituída de analfabetos e de gente pobre sujeita a todo tipo de catástrofes, fome, epidemias. As explicações ou teodiceias eram as mais variadas possíveis, e sempre no campo do mágico, do transcendente, da ação sobre-humana. Decorre destes fatos históricos o seguinte argumento:


[...] deve-se considerar a Matriz Religiosa Brasileira como o resultado inerente ao encontro de culturas e mundividências. Pode-se dizer, em grandes linhas, que no Brasil colonial colidiram duas grandes concepções religiosas: uma que sacralizava o ambiente natural e as forças espirituais a ele subjacentes; outra que ressaltava símbolos religiosos abstratos e transcendentais. Tais concepções não se mantiveram estanques, porquanto, na prática religiosa popular, foram desde logo combinadas. É fácil identificar que a primeira e mais antiga vertente era a dos povos indígenas, bem como das etnias africanas que aqui aportaram em decorrência da escravidão. Entretanto, os brancos adeptos do Cristianismo romano-católico eram de certo modo portadores de crenças similares, se considerarmos as religiões e a magia européia ancestrais (BITTENCOURT FILHO, 2003, p. 49,50).



Caximbo, maracá, água benta e terço na mão. Tira-mandinga, despacho, abre-caminho, jurema, benzeção, cura. O mestre da mesa e o mestre invisível.






Bittencourt Filho (2003) levanta uma série de considerações que marcam e se mesclam neste período colonial brasileiro: a facilidade de índios e negros de incorporarem à sua cosmovisão àquela do catolicismo ibérico (com raiz medieval); todos concebiam o mundo humano imerso do mistério do mundo sobrenatural; a comemoração de festas religiosas que continham "elementos ancestrais dos cultos ligados às forças da natureza"; festas sempre funcionavam como elemento de coesão social; crença generalizada em espíritos e nas possibilidades de comunicação com estes.


No entanto com o passar dos séculos a convivência harmônica foi substituída aos poucos pela visão catequética do catolicismo. As práticas indígenas foram demonizadas. Como relatado pelo sociólogo Gilberto Freire, no período colonial brasileiro formou-se uma cristandade composta de negros, mulatos e índios, que conferiu ao catolicismo brasileiro grande peculiaridade. A religião católica foi usada por senhores de terras como instrumento de dominação e a igreja se identificava com este poder dominante (1).



Com efeito, as formas religiosas e culturais condenadas como idolátricas e/ou demoníacas foram sendo canalizadas para uma religiosidade camuflada - transformada por isso mesmo em instrumentos de resistência e de manutenção da identidade ante as violências do opressor - e puderam assim compor um acervo religioso singular. Dito de outro modo, enquanto os indígenas (e africanos) aparentemente aceitavam as práticas sacramentais, mantinham no cotidiano, de maneira velada, condutas transgressoras no que tange às determinações eclesiásticas. Afinal, em verdade, as partes em conflito não eram apenas dois 'sistemas' religiosos, mas sim, um amplo embate entre duas mundividências, o que comportava várias dimensões (política, econômica, religiosa, estética, etc.) (BITTENCOURT FILHO, 2003, p. 57,58).



[...] o desafio que persiste para uma perspectiva sociológica da religião no Brasil é que, milhões de brasileiros entregam-se diariamente a êxtases místicos e a outras tantas formas de arrebatamento religioso e de possessão pelas divindades, espíritos e forças sobrenaturais, ao mesmo tempo em que outros milhões, embora não participem da possessão acreditam piamente na possibilidade, na necessidade e na 'naturalidade' delas; independentemente do credo religioso que dizem professar. Acresce que tais experiências com o Sagrado têm como base crenças mágicas, utilitaristas, e imediatistas, ma esteira do individualismo do colonizador de que nos falam os clássicos (BITTENCOURT FILHO, 2003, p. 70).


(2) Gravura Cabocla Jurema -


Uma curiosa conduta atualmente das religiões, Católica Romana, com "missas de cura e de libertação", e, a Universal do Reino de Deus, com o uso de água benta, corrente de oração e óleo bento mostram uma disputa no campo religioso pela hegemonia. No final da reflexão sobre a formação da Matriz Religiosa brasileira, conclui-se:


No âmbito da Religiosidade Matricial Brasileira, muito mais importante do que os discursos religioso, doutrinário, ou teológico são os "testemunhos" e os cânticos.

Os primeiros são muito bem aceitos porque remetem o indivíduo, comovendo-o, e ratificando-lhe as convicções. Os cânticos propiciam a catarse coletiva, sobretudo quando acompanhados de coreografias e gestos simbólicos. Em suma: a subjetividade tende a uma pluralidade eletiva de opiniões e escolhas, em vez de uma totalidade que forneça sentido à vida (Bittencourt Filho, 2003, p. 81). É a força do subjetivismo ou pluralismo posto a serviço daquele que consome os bens de salvação.



Vídeo aula: Matriz Religiosa Brasileira



ATIVIDADE PROPOSTA:


1) Durante o nosso encontro eu falei por diversas vezes em 'Protestantismos', será que podemos também falar em "Catolicismos" ao analisar essas duas vertentes do cristianismo? Se sim, quais são os catolicismo (s) e protestantismo (s), e, apesar do exagero, quais são, se existem mesmo, os benefícios do uso desse plural para estudarmos as religiões abordadas? Em que isso contribui para o entendimento dessas religiões?


2) Faça uma breve pesquisa e identifique práticas religiosas indígenas, europeias e africanas nas religiões estruturadas no Brasil de hoje. Se preferir escolha uma religião apenas e identifique nela esse processo de sincretismo (3).


Obs. Podem postar ao final desse post, como de costume, aqui mesmo no blog, as respostas das atividades propostas. Se preferirem enviar ao professor, façam-no para o e-mail - pfsahium@gmail.com



(1) Como estipulado na Constituição do Império Brasileiro, Art. 5. A Religião Catholica Apostolica Romana continuará a ser a Religião do Imperio. Todas as outras Religiões serão permitidas com seu culto domestico, ou particular em casas para isso destinadas, sem fórma alguma exterior do Templo.



(2) “A Jurema é minha madrinha, Jesus é meu protetor. A Jurema é um pau Sagrado Onde Jesus Descansou… Você por ser um bom Mestre Me ensina, eu trabalhar. Trabalhar com as três ciências: A Jurema, a Junça e o Vajucá”. "Jurema é uma árvore da caatinga e do agreste que tem sua casca utilizada para a fabricação de uma bebida mágica que concede força, sabedoria e contato com seres do mundo espiritual. É dessa forma que o uso da árvore desencadeia a formulação de uma experiência religiosa com mesmo nome" https://brasilescola.uol.com.br/religiao/jurema-sagrada.htm#:~:text=Antes%20de%20tudo%2C%20a%20jurema,experi%C3%AAncia%20religiosa%20com%20mesmo%20nome..



(3) Muitos entendem por sincretismo "a combinação de dois (ou mais) sistemas religiosos de modo que ambos deixam de existir como tais e produzem um sistema religioso original. Trata-se de uma fusão de âmbito institucional e dos sistemas de representação coletivas " (Ribeiro de Oliveira). Mas, queremos com o uso do termo sincretismo, apontar não somente o aspecto de fusão, "mas também de mistura, junção, paralelismo ou justaposição, convergência ou adaptação" (Jefferson Olivato da Silva).



BITTENCOURT FILHO, José. Matriz religiosa brasileira. Petrópolis, RJ: Vozes; KOINONIA, 2003.

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