• Pedro Sahium

Mounir Naoum, Um amigo extraordinário.


Corria o ano de 2004, eu tinha 39 anos e o conheci, ele tinha 75 anos. Fui à sua empresa e ele veio até a porta me receber. Moreno, olhos miúdos, de ombros um pouco encurvados e de passos firmes como de um atleta, me conduziu até a sua sala, me fez assentar diante dele à mesa, e sempre educado esboçando um sorriso, me dirigiu palavras num português arredondado pelos árabes – eu já conhecia esse som nas vozes de avós e tios que vieram do Líbano -, logo depois das saudações, me passou a contar histórias... Os árabes são bons contadores de histórias, lembrem-se das Mil e Uma Noites, das histórias de Simbad o marujo, de Aladim e a lâmpada maravilhosa e outras... O Sr. Mounir Naoum não apenas contava histórias mas as colecionava sendo ele mesmo o protagonista.

Percebi algo diferente: aquele homem, que busquei para pedir ajuda para fazer campanha política, tinha no pensamento a sua maior riqueza. Pensamento (no singular) elevado, bonito e próspero. Ele acreditava no Sagrado, em Cristo, mas não fugia das responsabilidades que o tempo e as circunstâncias lhe houvera impingido. Não estava preso ao “destino”, mas o fazia baseado no seu pensamento. Afinal ele saiu de sua cidade natal, Trípoli - Líbano, ainda com 17 anos de idade, passou por Marselha na França e num porão de navio, aproximadamente 47 dias depois de muitas agruras, chegou ao Porto de Santos no Brasil com pouco mais de 200 dólares no bolso. Ele iria construir, “nesse outro lado do mundo”, um grande patrimônio material, e uma plêiade de amigos e admiradores. Quando eu me encontrei com ele, sua alegria, vitalidade, educação e a curiosidade que nutria pelo mundo e pelas pessoas, me chamaram a atenção.

“Deus tem um apetite de criança” e não se cansa de criar

Como professor de crianças, ofício a que me dediquei em boa parte da vida até então, eu sabia reconhecer aquele sorriso prazeroso de quem sabe que fomos feitos para brincar, de quem não se cansa de viver ainda que a vida esteja repleta de repetições. Brincar é coisa de criança, mas também de Deus! Afinal, Deus e as crianças guardam semelhanças, disse o filósofo e escritor católico Chesterton, no início do século XX:

Uma criança balança as pernas ritmicamente por excesso de vida, não pela ausência dela. Pelo fato de as crianças terem uma vitalidade abundante, elas são espiritualmente impetuosas e livres; por isso querem coisas repetidas, inalteradas. Elas sempre dizem: “Vamos de novo”; e o adulto faz de novo até quase morrer de cansaço. Pois os adultos não são fortes o suficiente para exultar na monotonia. Mas talvez Deus seja forte o suficiente para exultar na monotonia. É possível que Deus todas as manhãs diga ao sol: “Vamos de novo”; e todas as noites à lua: “Vamos de novo”. Talvez não seja uma necessidade automática que torna todas as margaridas iguais; pode ser que Deus crie todas as margaridas separadamente, mas nunca se canse de criá-las. Pode ser que ele tenha um eterno apetite de criança; pois nós pecamos e ficamos velhos, e nosso Pai é mais jovem do que nós.

É isso. Sr. Mounir também tem o apetite de uma criança, é capaz de exultar na monotonia. Apesar das muitas obrigações que tinha, e, imaginei, das muitas pessoas que dependiam dele, Sr. Mounir entrou numa campanha política, indo a comícios e me acompanhando em lugares públicos, pedindo votos. Isso não era desconhecido para ele que, inclusive, já ocupara no estado de Goiás o cargo de secretário, para ajudar um amigo a administrar: Irapuan Costa Júnior, então Governador do estado de Goiás. Eu, um professor que queria ser prefeito, que não era bem conhecido no meio empresarial, na companhia do Mounir ganhei status. Ele multiplicou o número de amigos.

Mas porque ele se aventurou naquela campanha? Entendi que barcos não se amarram no cais, como não se deve cortar as asas de um passarinho. Sr. Mounir sabia reconhecer “momentos” de beleza, suas possibilidades e surpresas, mesmo que a vida e o tempo sejam apenas um fio. Com a ajuda do Rubem Alves (professor e escritor), e com a liberdade que tenho em usar/emendar/suprimir/acrescentar (mas de nunca esconder a fonte) os escritos de que preciso, contarei uma história, ao estilo das muitas que ouvi e aprendi com o Mounir Naoum

Aquilo que a memória amou fica eterno

“Existe grande alegria em terminar a obra que se iniciou: ver a casa pronta, o livro escrito, o jardim florescendo... Por muitos motivos acontece o que parece trágico: fica a casa não terminada, o livro por escrever, o jardim interrompido. Num livro de histórias conta-se de um homem, cinquenta e poucos anos, que descobre que teria não mais que seis meses de vida, a doença que estava em seu corpo matava rápido. Sem futuro, ele examina o passado, em busca de sinais que não viveu em vão...Pensa então que a vida deveria ser como uma sonata de Mozart que dura não mais do que vinte minutos. Morre cedo. Depois dela vem o silêncio. Morte feliz. O silêncio se faz porque tudo que havia para ser dito havia sido dito.

Vem então a compreensão: O tempo é apenas um fio, e nesse fio vão se enredando todas as experiências de beleza e de amor pelas quais passamos. “Aquilo que a memória amou fica eterno”. Um pôr-do-sol, um e-mail, que se recebe de um amigo, um único olhar de uma pessoa amada, o abraço de um filho... Houve muitos momentos em minha vida, de tanta beleza, que eu disse para mim mesmo: “Valeu a pena ter vivido toda a minha vida para viver esse único momento”. Há momentos efêmeros que justificam toda uma vida.

Como vivemos sob o feitiço do tempo achamos que a vida é como uma sonata que começa com o nascimento e deve terminar com a velhice. Por isso sofremos com a “sonata interrompida...”.

Mas, prestem atenção, isso está errado. Vivemos no tempo, é bem verdade. Mas é a eternidade que dá sentido à vida.

Eternidade não é o tempo sem fim. Tempo sem fim é insuportável. Já imaginaram uma música sem fim, um beijo sem fim, um livro sem fim? Tudo que é belo tem que terminar...Talvez, beleza e morte andem de mãos dadas. Eternidade é o tempo completo, esse tempo do qual a gente diz: “Valeu a pena”. Não é preciso evolução, não é preciso transformação: o tempo é completo e a felicidade é total. Isso acontece em “raros momentos de distração”, dizia Guimarães Rosa. Não importa, se aconteceu, fica eterno. Por oposição ao “nunca mais” do tempo cronológico, esse momento está destinado ao “para sempre”.

Vivemos no tempo, mas é a eternidade que dá sentido à vida

Compreendam: a vida não é uma sonata que, para realizar sua beleza, tem de ser tocada até o fim. Dei-me conta, ao contrário, de que a vida é um álbum de minis sonatas. Cada momento de beleza vivido e amado, por efêmero que seja, é uma experiência completa que está destinada à eternidade. Um único momento de beleza e amor justificam a vida inteira”.


* Na foto de capa estamos: Mounir Naoum, Rachid Cury e eu... Na palavras brincalhonas do Rachis: "Olha aí a turcaiada!!!"

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