• Pedro Sahium

O Joio e o Trigo,


Um olhar histórico da Democracia e do Totalitarismo.

PEDRO FERNANDO SAHIUM *

FREDERICO PACHECO DE SOUZA E SILVA *

"Dar o nome errado às coisas é acrescentar à infelicidade do mundo."

Albert Camus

A internet possibilita a comunicação instantânea, a publicação imediata e a disseminação planetária tanto das mais rigorosas ciências quanto das imbecilidades de botequim. No oceano amorfo da World Wide Web, um soneto de Shakespeare, um verso de Dante, um parágrafo de Machado ou um aforismo de Nietzsche tem o mesmo status, o mesmo valor e carrega a mesma autoridade que um slogan partidário, que um meme anônimo ou uma frase de Paulo Coelho. O discurso político e sobre a política tornou-se uma verdadeira torre de Babel, onde todo mundo fala mas ninguém entende. Nossos políticos sofrem de glossolalia crônica, e os comentaristas, de logorréia aguda. Os mal intencionados promovem a confusão de ideias e a desordem intelectual. E já é sabido a onde leva o caminho das boas intenções.

O marxismo estabelecido com grande insistência das universidades públicas brasileiras chama de "fascista" tudo que desagrada e todos que discordam da sua ruminância ideológica. Os reacionários, do outro lado, regurgitam o mesmo adjetivo. E assim temos marxistas que defendem a Declaração Universal dos Direitos Humanos sem sequer suspeitar da irônica dissonância cognitiva que encarnam. É preciso desatolar o pensamento dessa gosma ideológica. O totalitarismo é um evento histórico particular, o fascismo é uma forma de totalitarismo específica, localizada no tempo e no espaço. O uso do termo 'fascista' para designar 'abuso do poder' ou 'autoritarismo' é uma fraude intelectual que desonra as ciências humanas, descredita o usuário, lesa o leitor e insulta as vítimas dos 'verdadeiros' totalitarismos (fascismo, nazismo e comunismo). O fenômeno totalitário pertence ao século XX, e descreve um evento histórico único (i.e., específico) que só tem sentido dentro de seu contexto particular. Somente quando reinserido em sua especificidade histórica pode-se resgatar sua significação própria, compreender seu sentido histórico e esclarecer seu projeto político.

Uma topologia de características básicas nunca revelam o significado profundo de um movimento histórico. Ao contrário, essa metodologia tende a mascarar o motor histórico, camuflar a intenção dos atores, escamotear o projeto que sustenta a ação e ocultar a vontade que anima as decisões coletivas. No discurso panfletário e na sopa ideológica dos esquerdistas, a violência estatal generalizada é apresentada como característica fundamental do 'fascismo'. É uma herança intelectual de Hannah Arendt, autora ilustre que privilegia o nazismo como expressão quimicamente pura do fenômeno totalitário, e exclui o fascismo italiano da lista dos 'verdadeiros totalitarismos' porquê nele não houve terror de massa (mesmo se os inimigos do sistema não eram especialmente bem tratados).


O totalitarismo, como todo movimento histórico, é dinâmico, vivo, orgânico, e resiste à descrição topológica. O fascismo responde à uma situação histórica específica, viva, inédita e única: a crise do liberalismo do século XIX. Nesse período histórico das recém-nascidas democracias ocidentais, o governo representativo das Assembleias, coroado pelo sufrágio universal, entra em crise: de um lado, o parlamentarismo se mostra incapaz de representar concretamente a vontade popular, traindo o projeto democrático; do outro lado, a Primeira Guerra Mundial revela a estonteante resiliência do Estado. No início da Grande Guerra, os especialistas estimavam que o conflito não passaria de Agosto de 1914 (!), não por motivos sentimentais, mas por deficiência técnica e falta de meios concretos. O Estado mostrou seu poder (inesperado) e sua surpreendente resistência: o candidato perfeito pra fechar a distância entre a Política e a vontade popular. O governo totalitário tem como projeto realizar o que o liberalismo não conseguiu: a verdadeira democracia; e tem como modelo político o contrário do liberalismo. Se este é fundamentalmente a divisão do corpo político em sociedade civil e Estado, o totalitarismo volta ao modelo religioso, onde a divisão liberal não existe.

Em outras palavras, os regimes totalitários do século XX são tentativas de instaurar um regime concretamente democrático utilizando o dispositivo estrutural da religião (o nazismo segundo uma ideologia de extrema direita, e o bolchevismo segundo uma ideologia de extrema esquerda). Donde a apelação de 'religião secular', não por provocação, mas porque é uma descrição exata do fenômeno, tanto da sua forma paroxística quanto do seu conteúdo ideológico.

A experiência totalitária falhou espetacularmente, assim como, mutatis mutandi, falhou o projeto do Estado Islâmico, e pelas mesmas razões de fundo. O liberalismo ocidental ainda não achou a solução de seu problema central, do seu radix malorum: o abismo entre o Estado e a sociedade civil. O século XX nos ensinou que não se deve colocar vinho novo em odres velhos. Se o discurso político deve evoluir, é necessário cultivar um discurso que esclarece, que formula ideias de maneira precisa e que articula argumentos de forma rigorosa. É preciso separar o joio do trigo, e publicar o trigo. No campo de batalha da democracia, a aquisição de vocabulário é nossa única esperança.


* PEDRO FERNANDO SAHIUM é professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG); Formado em Ciências Sociais pela Faculdade de Filosofia Bernardo Sayão (1985); mestre em Educação pela PUC-GO (2011) e Doutor em Ciências da Religião (2018),concentração em Movimentos Sociais, também pela PUC-GO.

* FREDERICO PACHECO DE SOUZA E SILVA é Graduado em história e filosofia (2000) pela New Jersey City University, EUA; Mestre em filosofia moral e política pela Sorbonne - Paris IV (2005).

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