• Pedro Sahium

O Médico e o Paraíso

Atualizado: Jul 4


Tenho um amigo médico, o Dr. Maurício. Ele cuida muito bem dos seus pacientes. E eu acho que de tanto bem acompanhar, como médico, as pessoas que o procura, ele vive nos aconselhando (dizendo aos seus amigos): - “Carpe diem!” (Aproveite o dia).

Acredito que essa é uma forma de dizer, “o tempo se esvai rápido, fixe no ‘aqui e agora’, esse é o nosso único paraíso”.

Desconfio que seu conselho é fruto de quem enxerga o corpo/vida “como um vapor”, se apresenta de forma distinta, mas num átimo se dissipa, e num piscar de olhos acaba, morre. Então, para o meu amigo médico, o remédio para tal disparate da breve existência humana se encontra no “aproveite o dia”, e no hic et nunc (aqui e agora). Será que é por isso que o homo sapiens, inconformado com a brevidade e “aspereza da vida”, se entrega ao exercício mental e imaginário de um paraíso além mundo? Ou será que o “aqui e agora”, o hic et nunc, exclui a visão paradisíaca? Ou seja, quem se alimenta de uma visão do futuro “jardim de delícias”, para o além mundo, está condenando a não viver na terra?


O aqui e agora pode conviver com o paraíso.


Hoje, entregue às lembranças de uma visita que fiz nas cachoeiras da chapada dos veadeiros, região conhecida por Alto Paraíso (não é por acaso...), cercadas por ipês-do cerrado, caliandras, pequizeiros em flor, e flamboyant vermelho e laranja-claro (que, vindos da África, aqui nessas terra brasilis se adaptou tão bem), me ocorreu que o escritor Dante Alighieri (1265-1321), ao descrever o paraíso em sua obra, como observou o antropólogo Fabrice Hadjadj (2015), não pôs nenhuma porta à entrada dele. Ao contrário do inferno, que na porta ostenta um letreiro em que se lê: “Deixai toda a esperança, vós que entrais”.

Mas por que o paraíso não tem porta? E o que tem isso a ver com a chapada dos veadeiros?


Tudo aquilo que está de passagem pode tornar-se passagem para Aquele que é.


Hadjadj nos alerta que o paraíso não tem porta, “porque a porta do paraíso não se encontra em outro lugar”. A porta do paraíso pode ser, como para Dante, a belíssima Beatriz, ou, como para um sedento, o copo de água fresca. A ideia é que “se os nossos olhos se esclarecem, qualquer coisa servirá, até um beco sem saída, até uma janela tapada, até as páginas de um livro... No fundo, tudo aquilo que está de passagem pode tornar-se passagem para Aquele que é.

“A ideia do paraíso, portanto, não nasce de um ressentimento contra as asperezas da terra, mas de um pressentimento diante de suas belezas”. Caliandra, flor de pequi, flamboyant, chuveirinho, canela-de-ema e jacarandá de minas... todas exalam o cheiro antecipatório do paraíso. Não são elas nomes de nossas carências mas o “chamado de uma superabundância”. Paraíso ligado ao hic et nunc. Conquanto a fragilidade de todas essas vidas do cerrado, conquanto a brevidade de suas flores, elas nos contam mistérios. Hadjadj reforça: “Basta que eu abrace minha filha para saber o quanto ela me escapa” - E a flor de um ipê laranja-claro que observamos é como uma promessa sem palavras - “Eu queria estar aqui para sempre, mas sejamos sinceros: esse desejo de atualidade total é também uma esperança. A presença está vindo. Ela se retira agora no segredo de seu princípio, e na fugacidade de suas aparências”.

Abram os olhos, os campos já estão maduros, muitas colheitas podem ser feitas. Nossa sede de transcendência, aquela que é a raiz de toda a nossa busca, pode experimentar embora de forma não definitiva, “o agora que não chega a ficar”. A alma sedenta pode encontrar nas pistas deixadas os vestígios do paraíso, “o aqui e agora, que antecipa o ainda não”.

O paraíso é viver próximo d’Aquele que é a causa de todas as coisas.


“Como o paraíso não é nem do espaço, nem do tempo, ele já está por toda a parte e sempre no tempo e no espaço, cintilante e furtivo. Pode-se designá-lo como “mundo por chegar”, mas isso enquanto aquilo que chega a todo instante neste mundo. Não está o Eterno no princípio do tempo? Ele está portanto no coração do hoje, e posso pressenti-lo nos cinco segundos de um beijo. O Imenso não está no princípio do espaço? Ele é, portanto, o segredo do aqui, e posso adivinhá-lo nos vinte centímetros de um olhar”.

O que eu preciso falar ao médico, e também a todos (as) os meus amigos (as), se encontra nas palavras poéticas e sagradas de Hadjadj; “De fato, o que é o paraíso, senão viver próximo d’Aquele que é a causa de todas as coisas? Ir em sua direção não é fugir para outro século ou outro lugar, mas subir o rio até as nascentes, lançar-se o real até a sua fonte, ali onde todas as coisas levantam-se em seu frescor e em sua incandescência. Essa esperança não é uma tentativa de deserção, mas trabalho de uma restauração e de uma glória. Seu além não tem nenhum outro sentido além de nos proporcionar o estar enfim, juntos, profundamente, aqui e agora”.


HADJADJ, Fabrice. O paraíso à porta. São Paulo: É Realizações, 2015.

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