• Pedro Sahium

O sagrado e o Profano, Mircea Eliade

Logo na introdução da obra "O sagrado e o profano", o autor lembra a contribuição do teólogo e historiador das religiões Rudolf Otto, quando esse enfatiza o lado “irracional” das experiências religiosas que apontam para um "Deus vivo", expresso como "poder terrível" (mysterium tremendum, a majestas, mysterium fascinas). Para Otto o numinoso se apresenta como mistério, uma realidade outra, diferente da humana, portanto, inacessível.





Para Eliade, assim como para R. Otto, o sagrado é o "totalmente outro", uma ordem distinta da ordem natural, contudo se para Otto o gans andere é inacessível, para Eliade, todos nós podemos apreender o sagrado não nos concentrando na análise dos seus elementos irracionais. Para Eliade o sagrado é forte e poderoso por ser real, eficaz e durável. “É portanto através da experiência do sagrado que nascem as ideias de realidade, de verdade, de significação, que serão ulteriormente elaboradas e sistematizadas pelas especulações metafísicas”.

Eliade dá uma autonomia ao fato religioso sem com isso anular as contribuições da sociologia, da psicologia ou da história.Contudo para Eliade o sagrado se opõe ao profano e por isso mesmo pode ser estudado na sua totalidade (p. 17). O sagrado que se manifestava como "totalmente outro", mas usa, para título de comunicação/revelação, elementos e linguagem tiradas de empréstimo da própria natureza. Eliade também nos lembra de que não será muito antecipar que o texto apresenta o sagrado e o profano como "duas modalidades de ser no mundo, duas situações existenciais assumidas pelo homem ao longo de sua história" (p. 20).

O ESPAÇO SAGRADO E A SACRALIZAÇÃO DO MUNDO

Numa existência religiosa quando o sagrado se manifesta por uma hierofania dá-se origem, e ordenamento, a um mundo com sentido. O caos é superado, vencido por meio de uma "rotura" no espaço que antes se mostrava uno, homogêneo. Surge um local "especial", um "ponto fixo absoluto", um "Centro" (p.26). Este lugar especial de revelação torna-se uma "porta", uma abertura para o transcendente. Interessante notar que para Eliade, essa "porta" é muito mais que um umbral de passagem de um lado para outro, de uma realidade para outra:


O limiar, a porta, mostra de uma maneira imediata e concreta a solução de continuidade do espaço; daí a sua grande importância religiosa, porque se trata de um símbolo e, ao mesmo tempo, de um veículo de passagem (ELIADE, 2013, p. 29).

É por essa "abertura" que os homens se comunicarão com as divindades. A Igreja em uma cidade é citada como um exemplo deste espaço que se "abre para cima", uma "porta para o alto" que possibilitara trânsito dos seres nos dois sentidos de realidade (p. 28). Quando em qualquer cultura os homens consagram lugares aos deuses, se instala imediatamente um ordenamento, uma repetição daquele momento primordial de "rotura" do espaço comum, profano, e, daí, se estabelece uma ordem cósmica. Eliade chama esse processo de "cosmização do mundo", "repetição da cosmogonia" (p. 34). Não se pode viver no caos, é preciso ter a "abertura para o alto".

Eliade resume assim a instalação deste espaço e de seus rituais de cosmização:


Temos, pois, de considerar uma sequência de concepções religiosas e imagens cosmológicas que são solidárias e se articulam num "sistema do Mundo" das sociedades tradicionais: (a) um lugar sagrado constitui uma rotura na homogeneidade do espaço; (b) essa rotura é simbolizada por uma "abertura", pela qual se tornou possível a passagem de uma região cósmica a outra (do Céu à Terra e vice-versa; da Terra para o mundo inferior); (c) a comunicação com o Céu é expressa indiferentemente por certo número de imagens referentes todas elas ao Axis Mundi: pilar (cf. a universalis columna), escada (cf. a escada de Jacó), montanha, árvores, cipós etc.; (d) em torno desse eixo cósmico estende-se o "Mundo" ("nosso mundo") - logo, o eixo encontra-se "ao meio", no "umbigo da Terra", é o Centro do Mundo (ELIADE, 2013, p. 38).

A instalação deste espaço é a fundação de “um mundo”, não um mundo qualquer, mas um "mundo com ordem", o "nosso mundo", um mundo como "expressão do sagrado", com um "centro", um "cosmos" (belo, equilibrado, fonte de beleza). A questão não ocorre num espaço geográfico, que aliás pode se multiplicar grandemente, mas num espaço existencial, sagrado. Eliade já tinha dito anteriormente que mesmo para o homem mais francamente não-religioso, alguns locais (a paisagem natal, os sítios dos primeiros amores, ou certa cidade visitada na juventude), guardam "uma qualidade única: são os lugares sagrados" do seu universo privado, como se neles um ser não-religioso tivesse tido a revelação de uma outra realidade, diferente daquela de que participa em sua existência cotidiana (p. 28).







A construção de templos, de basílicas, de catedrais representam uma manifestação arquitetônica, física, de algo ditado pelos deuses. Por isso é um espaço privilegiado, sagrado, e, mais ainda, é um espaço que santifica o mundo como um todo.

A profunda nostalgia do homem religioso é habitar um "mundo divino", ter uma casa semelhante à "casa dos deuses", tal qual foi representada mais tarde nos templos e santuários. Em suma, essa nostalgia religiosa exprime o desejo de viver num Cosmos puro e santo, tal como era no começo, quando saiu das mãos do Criador (ELIADE, 2013, p. 61).


Por fim quero salientar que Eliade desconfia da irreligiosidade do homem moderno. Para ele O sagrado se camufla no profano. Ele acredita que apesar de afirmar sua descrença, o homem moderno age como um religioso. Eliade percebe esse comportamento religioso, por exemplo:

  1. Nas festas que acompanham o ano novo, que guardam um ritual de renovação (as pessoas se vestem de branco, acreditam e fazem propostas para si mesmos de cumprir isso ou aquilo nessa nova fase que vai começar etc. ;

  2. No cinema que está encharcado de temas e personagens míticos (de deuses, titãs, vampiros, magos e bruxas, demônios etc. ;

  3. Na própria ideologia comunista, que retoma temas escatológico (as massas simpatizantes do comunismo, exceção para a elite dirigente, são estimuladas e encorajadas por slogans tais como: libertação, liberdade, paz, resolução dos conflitos sociais, abolição do Estado explorador e das classes privilegiadas, uma verdadeira doutrina da salvação.

Para Eliade, mesmo no nosso mundo atual, com todos os avanços, o sagrado não foi abolido, mas está presente de forma camuflada.


O nosso último encontro está gravado abaixo, se achar importante assista novamente.

Deixe no nosso fórum sua opinião sobre as formas camufladas em que o sagrado aparece nas vidas dos homens a-rreligiosos do mundo moderno.



Vídeo aula do 2º encontro

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