• Pedro Sahium

Os guardados do meu pai


Numa tarde dessa semana, com a chuva persistente e por isso sem condições de sair de casa, segurando um copo de café a soltar um aroma quente e cheio de reminiscências, busquei na minha biblioteca a caixa dos “guardados do meu pai”. Me coloquei pacientemente a apreciar o que ele tinha deixado lá (fotos, textos, poesias, cartas que ele escreveu para partidos políticos, mensagens bíblicas etc.). Repentinamente me veio a ideia de que aquilo era o testamento dele, a herança da sua vida. “O testamento é o que restou, depois de feitas todas as somas e subtrações. É aquilo que se passa às mãos dos que continuarão a viver depois de nós...”, diz Rubem Alves na belíssima crônica “O testamento”. As coisas que meu pai ajuntou, aqueles “guardados”, não eram a bem dizer valores pecuniários, ajuntados com o passar do tempo. Essas coisas não tem muita importância. “Essas coisas não tem o poder de nos tornar mais sábios nem mais felizes” dizia Rubem Alves. “Porque a sabedoria e a felicidade são coisas que crescem por dentro, enquanto as coisas ajuntadas ficam de fora”. A herança do meu pai eram as palavras.



Meu pai, mais no fim da vida, tornou-se jardineiro. Depois dos 80 anos de vida procurava sementes em muitos lugares. Ele as plantava, esperava crescer e doava aos amigos. Ele espalhou por aí muitos ipês, castanheiras, pequizeiros, acácias e mognos. Na porta de minha casa tem uma acácia que ele plantou para mim. Hoje está florida de um amarelo brilhante e me diz sobre sua dedicação à amizade, seu grande projeto no mundo. Essa árvore é um símbolo – sinal visível de uma dádiva invisível – das muitas amizades que meu pai fez também nas Lojas Maçônicas “Lealdade e Justiça” e “Roosevelt” (A acácia é um símbolo das maçonarias e significa pureza, segurança, clareza). Ter amigos não é garantia de felicidade, mas é uma das mais belas coisas a nos acompanhar pela vida. Nossos amigos se tornam eternos nas nossas lembranças. Amizade é promessa de imortalidade! Meu pai se fez jardineiro e seu pedido, no testamento que descobri, foi: ‘Por favor, na minha ausência, não se esqueçam de regar as minhas plantas... (os amigos)”.



Meu pai ajuntou coisas ao longo da vida. Mas não é disso que se trata esse “testamento”. Alertado por R. Alves e pela convivência com meu pai por quase 50 anos, entendi que o seu testamento não é constituído de bens materiais, coisas que se gastam e, às vezes, se tornam objeto de disputas de herdeiros (sabemos que muitas famílias e amizades foram abaladas por causa de heranças).

Nos “guardados do meu pai” encontrei uma parte de sua herança que veio sob o título de “apenas o Essencial”, um escrito recortado de um velho jornal que ele guardou e adorava repetir: “Até meus 20 anos eu não tinha muita coisa além da roupa do corpo, meu orgulho e meu apetite. Dos 20 aos 50, trazia para casa tudo que eu gostava, e que podia pagar. Dos 50 aos 60 me deliciei com aquilo que possuía, mas, entre os 60 e 70 descobri que meu prazer era dar minhas coisas. Agora, com mais de 80, caminhando para o fim da vida, acho que só vale a pena conservar três coisas: minha Bíblia, meus óculos e minha dentadura postiça”.



Quem sabe isso desperta o poeta que há em nós, nos fazendo melhores pessoas e mais dedicados aos amigos. Essa sim, nossa grande herança, de todos os “guardados do meu pai”.




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