• Pedro Sahium

Protestantismos na Matriz Religiosa brasileira

Atualizado: Ago 5

Abordar uma questão histórica, seja ela qual for, nos dá a oportunidade de refazermos o “já conhecido”, acrescentando, diminuindo, suprimindo, desconstruindo e reconstruindo novos caminhos de compreensão. Afinal de contas, “a história é a consciência da humanidade”, como afirmava o também historiador K. Marx.

Faremos uma breve releitura dos fatos que levaram à Reforma Protestante e depois veremos as extensões dessa vertente no Brasil. Para Guimarães Rosa a releitura é uma maneira de “não ser analfabeto para as entrelinhas”, é uma maneira de acessar o que não foi percebido, num primeiro momento, por meio da leitura “pura e simples”. No mesmo sentido o escritor português José Saramago afirmou que “nós somos feitos de papel, do papel dos livros que lemos”, vamos então ampliar/aprofundar o já lido.

FATORES QUE TORNARAM INEVITÁVEIS A REFORMA


Podemos enumerar os seguintes fatores que antecedem à Reforma:


1) relutância da Igreja Medieval em produzir mudanças, mesmo com o trabalho incessante dos chamados precursores da Reforma, como: John Wycliffe (1328-1384), reformador inglês e professor de Oxford e renomado teólogo; Jan Huss (1369-1415) reformador que produziu extensa produção teológica e que influenciou o movimento de reforma em Praga; Girolamo Savonarola (1452-1498) padre dominicano, pregador em Florença que condenou o ideário “pagão” do Renascimento, fez nova interpretação do livro do Apocalipse, reformou a vida nos mosteiros da Toscana e pregou uma regeneração moral em regiões da cristandade das cidades italianas;


2) As nações Estado contra o poder universal da Igreja;


3) A formação da classe média que se revoltou contra os impostos remetidos para Roma.


O contexto da sociedade medieval nos 1500 mostra uma sociedade que está ruindo. Talvez valha uma síntese para aquele período do século XVI: "a igreja universal deve ser substituída por Igrejas locais, nacionais, estatais ou livres" - esse sentimento crescia.

A “pedra de Toque” da Reforma se deu em 31 de outubro de 1517 quando o monge agostiniano Martinho Lutero fixou na porta da capela de Wittenberg as “95 teses”. Temos nesse fato uma motivação religiosa, uma questão teológica, pelo menos no ponto de vista nuclear.

RELAÇÕES ENTRE PROTESTANTISMO E MODERNIDADE O Protestantismo foi corresponsável, junto com outras forças (o nacionalismo, a burguesia, o humanismo e o avanço das ciências), pelas mudanças do Mundo Moderno. Três fatores marcam a vida moderna que se estruturaria de forma permanente e dinâmica, tendo como marco a transição do feudalismo para o capitalismo: A formação do Mercado, o processo de Individualização, e o permanente Avanço Tecnológico.

De acordo com Cavalcante (2017, p. 45), a Reforma gerou a contradição de construir uma sociedade onde o sujeito se impõe como protagonista e dono do seu destino, ao mesmo tempo em que fragmenta ao infinito essa mesma sociedade em um espírito individualista irrecuperável. Outra contradição, salientada por Hervieu-Lèger (2005), é a de que a modernidade avançou minando toda forma de credibilidade dos sistemas religiosos e fazendo surgir concomitantemente novas crenças num processo de bricolagem dessas. De forma mais direta, a Reforma Protestante, na sua forma calvinista, tem, para Weber (2014), uma relação de afinidade eletiva com o capitalismo e seu desenvolvimento. Weber (1989 esclarece:

É verdade que a maior participação relativa dos protestantes na propriedade do capital, na direção e na hierarquia superior do trabalho nas grandes e modernas empresas comerciais e industriais, pode em parte ser explicada por fatores históricos, que se estendem a um passado longínquo, e, no qual a filiação religiosa não é uma causa das condições econômicas, mas, em certa extensão, aparece como resultado delas (WEBER, 1989, p. 19).



De acordo com Weber as regiões mais desenvolvidas economicamente e mais ricas de recursos naturais, foram as que aderiram ou foram mais favoráveis à revolução religiosa. Por quê? Ele responde que isso se deve à vontade de emancipação do tradicionalismo econômico. A Reforma não representou a “eliminação do controle da Igreja sobre a vida cotidiana, mas antes a substituição do controle vigente por uma nova forma”. Além disso, Weber (1989) salienta o fato de que os protestantes na Alemanha, em alguns de seus ramos, tanto como classe dirigente, quanto como classe dirigida, seja como maioria, seja como minoria, terem demonstrado tendência específica para o racionalismo econômico, que não pode ser observada entre os católicos em qualquer uma dessas situações. “A situação dessas diferentes atitudes deve, portanto, ser procurada no caráter intrínseco permanente de suas crenças religiosas, e não apenas em suas temporárias situações externas na história e na política” (Weber, 1989, p. 23).


Chegando de forma organizada e missionária no Brasil do século XIX, o protestantismo (mais tarde classificado de 'clássico'), fincou suas raízes. Veja o exemplo do presbiterianismo:




Atualmente tratamos como "protestantes" o conjunto de igrejas (por muito tempo referenciadas como seitas) que tensionam um arco que alcança denominações como: batistas, presbiterianos, metodistas, luteranos, anglicanos, episcopais, congregacionais, menonitas, grupos pentecostais (esses por sua vez podem ser classificados de maneiras diferentes) dentre outros.





No nosso próximo encontro farei um apanhado histórico dos diversos protestantismos no Brasil e também dos pentecostalismos.



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