• Pedro Sahium

Religião e secularização


Abrimos nosso encontro dessa última segunda feira usando o termo "desencantamento do mundo" para explicar o processo de racionalização e intelectualização que passaram a vigorar no mundo moderno ocidental, ou seja, no mundo construído socialmente a partir dos anos 1500, partindo da Europa.



Esse conceito, "desencantamento do mundo", foi criado e usado pelo sociólogo alemão Max Weber (1864-1920), como um conceito que traduz o significado dos pilares que fundamentaram a formação da modernidade ocidental, quais sejam, a racionalização, a intelectualização e a desmagificação da religiosidade.



Max Weber afirmou que o fato de trabalhar no sentido de buscar o progresso não significou que a geração de hoje saiba mais do que as gerações passadas, senão que alcançou um nível de busca, de preparo, de meios, que as possibilita ir avançando, sem implicar um “conhecimento maior e geral das condições sob as quais vivemos” (p. 165). Indo além ele salienta:



[podemos ter o] conhecimento ou crença em que, se quiséssemos, poderíamos ter esse conhecimento a qualquer momento. Significa principalmente, portanto, que não há forças misteriosas incalculáveis, mas que podemos, em princípio, dominar todas as coisas pelo cálculo. Isto significa que o mundo foi desencantado. Já não precisamos recorrer aos meios mágicos para dominar ou implorar aos espíritos, como fazia o selvagem, para quem esses poderes misteriosos existiam. Os meios técnicos e os cálculos realizam o serviço. Isto, acima de tudo, é o que significa a intelectualização (WEBER, 1982, p. 165).


Fica claro que, usados os meios técnicos apropriados, fica dispensado um pensamento ou ação 'mágica' diante do mundo natural ou do homem (genérico). Ele [o homem] não precisa pedir ajuda aos deuses, ou espíritos, ou anjos, mas, precisa, isso sim, encontrar os meios técnicos, racionais, intelectuais, que expliquem o seu entorno, o seu mundo e funcionamento - é a racionalização de tudo. É a ciência que avança e se torna saber prático.


Além disso a ciência deve “contribuir para os métodos de pensamento, os instrumentos e o treinamento para o pensamento”, afirma Weber. É a ciência que deverá levar os homens à clareza, na sua opinião.

"A ciência hoje é uma 'vocação' organizada em disciplinas especiais a serviço do auto-esclarecimento e conhecimento de fatos inter-relacionados. Não é o dom da graça de videntes e profetas que cuidam de valores e revelações sagradas, nem participa da contemplação dos sábios e filósofos sobre o significado do universo (WEBER, 1982, p. 180).

A nossa época, de acordo com Weber, caminha para uma estrutura ou ordem “sem deus”, com alta racionalização e intelectualização e com o “desencantamento do mundo” (p. 182). Os valores mais sublimes se retiraram da vida pública. Isto não impede ninguém de sacrificar o intelecto e abraçar novamente a religião... (assevera ele com certa ironia).


Interessante notar que Max Weber aponta até na religião, no protestantismo pós 1517 (data da manifestação de Reforma religiosa do monge Lutero) essa racionalização. Para Weber o protestantismo é a racionalização religiosa levada às últimas consequências ao instituir uma religião sistemática e doutrinária.



"A religião se desmagifica ao adotar a racionalidade extremada como meio de compreensão do sagrado. Isso ocorre quando a religião se desvencilha da magia e passa a sistematizar de forma intelectualizada sua cosmovisão relacional entre Deus e o mundo. Isso força o surgimento de um novo ethos (comportamento) religioso, no caso o protestantismo, pautado por um ascetismo ético (comportamento social rigoroso, cheio de regras e impedições) originado da necessidade em dar significação ao cotidiano da vida social. Os sacramentos, sortilégios e promessas dão lugar à ética protestante como meio de significação da existência. Esse ‘desencantamento do mundo’ que desvela tanto o mundo natural quanto a condição existencial humana e crava de objetividade a realidade quotidiana, torna o mundo vazio de sentido. O homem civilizado que avança continuamente no conhecimento e na experiência fica repleto de coisas à sua volta, mas apropria-se muito pouco dessa realidade, o homem moderno é cansado da vida e não pleno dela. A intelectualização do religioso, a falta de um contato direto com o divino causado pelo esvaziamento dos símbolos e pelo domínio da objetividade científica gera um mundo sem significação, sem sentido, desencantado. A busca desse sentido no mundo pela eticização da vida (regulação das atitudes e de todos os comportamentos sociais] é o que marca a formação da modernidade e de seu espírito, a cultura capitalista.


O modo de vida metódico, moralmente orientado, ascético possibilitou o desenvolvimento do capitalismo ("A ética do protestantismo e o espírito do capitalismo")


Para Weber, a religião protestante fortaleceu um tipo específico de ethos (um comportamento social criado a partir da prática religiosa). E esse comportamento social, ethos, criado pela prática religiosa protestante, favoreceu o desenvolvimento de um mundo racionalizado economicamente, voltado para o desenvolvimento social e econômico capitalista. O modo de vida metódico, moralmente orientado, ascético possibilitou o desenvolvimento do capitalismo.

De que forma? veja:


Nas práticas protestantes se difundiu amplamente essa “ética tipicamente burguesa”, que pode ser dada nos princípios da seita metodista na América, que proibia:


1. Conversar enquanto compravam e vendiam (“regatear”);

2. Negociar as mercadorias antes de pagos os tributos aduaneiros sobre elas;

3. Cobrar juro mais alto do que o permitia a lei do país;

4. “amontoar tesouros na terra” (significando isso a transformação do capital de investimento em “riqueza consolidada”);

5. Tomar empréstimos sem ter certeza de capacidade de pagar a dívida;

6. Gozar de luxos de todos os tipos.



Nesse contexto de "desencantamento do mundo", avançou aquilo que chamaríamos mais tarde, na história, de processo de secularização:


- O termo secularização tem significado múltiplos:


a. Declínio das crenças e práticas religiosas;

b. A libertação do homem moderno da tutela da religião;

c. Marginalização a religião para o setor privado;

d. Termo usado como sinônimo de 'descristianização', 'paganização’ (por isso acaba por ser alvo de combate dos cristãos)


Este fenômeno não pode ser reduzido a um fator monocausal.



Por secularização entendemos o processo pelo qual setores da sociedade e da cultura são subtraídos à dominação das instituições e símbolos religiosos [...] Quando falamos em cultura e símbolos, todavia, afirmamos implicitamente que a secularização é mais que um processo socioestrutural. Ela afeta a totalidade da vida cultural e da ideação e pode ser observada no declínio dos conteúdos religiosos nas artes, na filosofia, na literatura e, sobretudo, na ascensão da ciência, como uma perspectiva autônoma e inteiramente secular, do mundo.


Mais ainda, subentende-se aqui que a secularização também tem um lado subjetivo. Assim como há uma secularização da sociedade e da cultura, também há uma secularização da consciência. Isso significa, simplificando, que o Ocidente moderno tem produzido um número crescente de indivíduos que encaram o mundo e suas vidas sem o recurso às interpretações religiosas (BERGER, 1985, p.120).



ATIVIDADE PROPOSTA:

Responda as questões abaixo e deixe registrado aqui no final desse post no blog -


1) Escreva em uma frase o que você entendeu por "desencantamento do mundo" e aponte, na nossa realidade, traços desse desencantamento.


2) "O processo de secularização avançou no mundo moderno, apesar de que a busca pelo sagrado permaneça presente ainda hoje, às vezes de forma camuflada". Comente essa afirmação e dê exemplos que confirmem ou neguem a mesma.


Vídeo aula - Secularização



Referências:


BERGER, Peter. O dossel sagrado: elementos para uma teoria sociológica da religião. São Paulo: Paulus, 1985.



WEBER, Max. Ensaios de sociologia. Trad. Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: LTC, 1982.



_______. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Ed. Pioneira, 1989.

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