• Pedro Sahium

Subtração suprema, viva a ressurreição.

Desde a primeira vez que estive no Louvre foram as esculturas que me deixaram paralisados. Psique reanimada pelo beijo, parecia ter vida, tão vívida diante dos olhos que eu quase podia antecipar seus movimentos...Transcendentes nos sentimentos que provocam. A Vênus de Milo, vinda da Grécia antiga, tem séculos de existência, [EXISTÊNCIA], de beleza. A escultura é uma arte que cresce pela subtração.

Na palavras de Hadjad: “O escultor retira, estilhaça, cinzela, faz nascer do bloco pedaço após pedaço, de modo que, no começo, entre o martelo que quebra o ídolo e aquele que liberta a estátua, a diferença é das menores”.



Entendo o medo das religiões monoteístas diante das esculturas, as “estátuas”, os “ídolos” ... Elas, as esculturas, por incrível que possa parecer, também podem falam, elas ouvem e tocam. Não como as quinquilharias mercadejadas mundo afora pelo capitalismo e os seus múltiplos objetos enfeitiçados. O problema é que os religiosos tem medo desses feitiços antigos mas não se cuidam que mamon é o grande ídolo a ser evitado, anulado, banido. Não podeis servir a Deus e a mamon. Pode ser que as pessoas confundam os sentimentos e as coisas, as coisas do sentimento. Não se pode orientar a vida pelos sentimentos. Sentimentos não são mapas seguros de navegação. Concordo, mas a beleza dá sentido à vida, Dostoiévski dizia, pela boca de um dos seus personagens, que “a beleza vai salvar o mundo”.


Sobre escultor e esculturas é bom lembrar daquela "anedota de Miguelangelo indo de tempos em tempos visitar um bloco de mármore como que para consultá-lo sobre aquilo que ele mesmo gostaria de tornar-se [...]. símbolo de uma profunda verdade; A matéria aspira à forma de que é uma possibilidade".


Mais aliviado, livre das condenações do protestantismo que não sabe distinguir entre deuses e belezas, sei que o cristianismo nunca condenou a arte. A arte é divina. Deus mesmo é o primeiro artista/escultor que do barro moldou o homem, ensina o Livro sagrado de Gênesis. Essa é uma grande metáfora, mas existem outras, como aquela adotada pelos místicos da Igreja que “viam no ato plástico e ambíguo dessa arte – que faz parecendo desfazer, que suscita a beleza a coronhadas – uma metáfora do agir divino em nossas vidas” (HADJAD).


Na pena do jesuíta Jean-Pierre de Caussade um grandiosíssimo exemplo:

“A pedra, por golpes reiterados, não sente a figura que o artesão opera nela. Ela só sente o cinzel que a diminui, que a raspa, que a corta, que a desfigura [...]. E se lhe perguntamos: “O que sucede contigo?”, ela poderia responder: “Nem me pergunte [...]: recebo cada golpe do cinzel como aquilo que há de mais excelente para mim, ainda que para dizer a verdade, cada golpe só traz a meu sentimento a ideia de ruína”.

Uma alegria pelo despojamento? Parece que sim. Uma alegria final que estilhaça a nossa suficiência, “um esplendor que só vem pelo despojamento”.

E por fim, "a alegria suprema quando pelo despojamento maior que será o nosso corpo inteiro entregue como pasto aos vermes [aquela subtração mais forte], vem a mais viva ressurreição”.

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